Costumava morar em uma casa no campo, no alto de uma montanha. Eram tempos fáceis, preocupações tolas e pessoas simples. Onde morava era pequeno, mas muito aconchegante. Vivia com meus pais. Gostava daquela época, daquela vida.
Não muito longe de casa, tinha uma árvore. Enorme, imponente, de galhos grossos e cheia das mais verdes folhas. O primeiro contato que tive com essa árvore foi único. Foi como reencontrar uma pessoa amada depois de anos. Meu pai me colocou sentado no galho mais baixo, não era muito grosso, mas sustentava facilmente o peso de uma criança de 7 anos. Eu me senti no topo do mundo, mesmo daquele galho. É incrível a perspectiva que temos do mundo quando somos crianças. Meu pai me disse “Vamo filho, sobe até o úrtimo galho! Mas toma cuidado, num precisa ter pressa”.
E então eu olhei pra cima. Foi uma visão esplêndida, vigorosa. O vento assoviava, e as folhas, grandes e verdes, farfalhavam em resposta. Fachos de luz preenchiam suavemente os poucos espaços vazios que existiam entre as folhas. Olhei pra baixo novamente e vi que meu pai foi se sentar no seu banquinho costumeiro.
Me apoiei no tronco e em outro galho, e devagar fiquei em pé. Olhava pra todos os lados, procurando a melhor rota pra escalar. Não senti medo, mas curiosidade. “Como será que é o mundo visto lá de cima?” eu pensava sem parar, criando imagens em minha cabeça. Em alguns minutos, estava um pouco acima da metade da árvore, pelo que parecia. Olhei pra baixo, e vi um ninho de pássaros, com alguns ovinhos. Fiquei realmente entusiasmado. Estava em um mar de folhas. No que pareceu um dia inteiro, quando dei por mim, estava no galho mais alto, contemplando as verdes montanhas além da minha humilde casa. O pôr-do-sol já se derramava sobre nós, alaranjando o horizonte suavemente. Olhei pro meu pai, tinha me esquecido dele. Ainda sentado no seu banquinho, sorria pra mim. Sorri de volta. O mundo pareceu diferente. Eu me senti diferente. Não queria sair dali.
“Filho, desce, tá anoitecendo, vamo jantá”.
Eu desci com uma incrível facilidade, como se já escalasse há anos. Antes de entrar em casa, apreciei novamente a imagem da enorme e majestosa árvore. E entrei pra jantar.
Desde então, passava a maior parte do dia escalando a árvore. Subia, descia, pulava, me equilibrava e pendurava. Ás vezes procurava novos ninhos de pássaros, ou insetos para brincar com gravetos.
Eu era educado em casa, pela minha mãe. Ela me ensinava muito bem, e quando ia estudar, levava o livro comigo para o galho mais grosso da árvore e o lia confortavelmente.
Com os anos, a árvore virou minha melhor amiga. Conversava com ela, chorava com ela, sentia com ela.
Nos dias chuvosos, eu ia fazer companhia pra árvore, e ela me acolhia.
Não haviam pessoas perto da onde eu morava. Sempre fora eu, meu pai e minha mãe. De vez em quando eu ia com meu pai até a cidade, mas não me interessava. Pra falar a verdade, eu ficava ansioso pra voltar pra minha amiga árvore.
Em uma manhã cinzenta e chuvosa, quando acordei, minha mãe estava ao meu lado, com os olhos cheios de lágrimas. Ela olhava pra mim com uma cara piedosa, melancólica, e enxugava o rosto de lágrimas.
Eu me assustei muito. Parecia que meu peito exodiria a qualquer segundo, nunca tinha visto minha mãe chorar. Quando perguntei o que tinha acontecido, ela me abraçou, soluçando. “Seu pai morreu. Vamo ter que ir pra cidade grande”.
Meu mundo acabou. Eu não queria ir pra cidade. Não queria abandonar minha árvore. Meu lugar era lá. Queria viver da agricultura, como meu pai. Respirar o ar que as árvores respiram. Beber da água que os animais bebem. Comer somente o que a terra pode fornecer, e não é pouco.
Minha mãe nunca me disse como meu pai morreu. Nunca quis tocar no assunto, e quando ela percebia que eu ia falar algo sobre, ela me silenciava. Fomos morar em São Paulo, com minha tia.
Pouco tempo depois, minha mãe também morreu. Simplesmente perdeu a vontade de viver, caiu em uma profunda depressão.
Nessa época eu já era homem, e trabalhava com minha tia na floricultura. Eu gostava do trabalho, me lembrava o campo. Nesse meio tempo, descobri uma nova paixão. Os livros. Minha tia lia muito, e frequentava a biblioteca todos os dias. E quando fui a primeira vez com ela, mudou minha vida. Foi como escalar pela primeira vez a minha querida árvore, que não via há muitos anos.
Comecei a ler excessivamente, sempre que podia. Um desejo de escrever começou a crescer dentro de mim, e ele era alimentado pelos livros que eu lia. Queria ser escritor. Essa foi minha decisão, minha meta de vida. Não queria levar uma vida em vão, sem propósito. Queria mesmo era criar histórias, personagens e mundos únicos. Escrever sobre o que achava das coisas, da vida e das pessoas.
Minha tia era viúva, e muito velha. Acabou morrendo de infarto. Herdei a casa, e uma pequena quantia que ela tinha designado a mim. Era uma boa mulher.
Comecei a enviar meus contos para vários jornais e revistas da cidade, e foram bem recebidos. Comecei a ganhar a vida com escritor, não era muito, mas pelo menos eu não passava fome.
Um certo dia decidi visitar minha antiga casa, e viajei de ônibus sozinho. Demoraram alguns dias, mas minhas lembranças daquele lugar me motivaram a seguir viagem.
Desci na cidadezinha, que era 1 hora de carroça longe da minha casa. Um bom senhor concordou em me levar até a solitária casa.
Da estrada de terra, consegui enxergar a silhueta de um casebre e uma enorme árvore do seu lado.
Quando caminhei, agora sozinho, até minha casa, me senti horrível. A terra estava muito seca, os pássaros não cantavam, e as outras montanhas no horizonte me encaravam tristemente.
A casa estava abandonada, caindo aos pedaços. As janelas quebradas e a porta arrombada. Quando entrei na casa, estava vazia, mofada, a madeira devorada por cupins, e havia grama saindo do chão em alguns lugares. Um desastre.
A pior parte veio depois, quando fui ver a árvore. Eu precisei ver a casa antes, afinal, meu pai construiu sozinho, com as próprias mãos, e foi onde eu nasci.
Quando cheguei perto da árvore, me senti como se tivesse acabado de tomar um soco no estômago. Caí de joelhos, e olhando a árvore, lágrimas escorreram pelo meu rosto, inesperadamente.
Estava grande como sempre foi, porém mais frágil do que nunca. Muitos dos galhos estavam quebrados, ou pendurados. O tronco descascado, seco, destruído. Pouquíssimas folhas, amareladas e secas, farfalhavam com o vento fraco. Podia jurar que a ouvi sussurrar “Onde você estava? Por que me deixou?”.
Enxugando as lágrimas, me levantei e caminhei vagarosamente pela estrada de terra. Olhava pra trás de vez em quando, e cada vez que olhava, me sentia pior. Não podia fazer nada, minha vida não era mais ali. Faziam 57 anos que eu tinha partido pra cidade, e desde então, só visitava minha antiga casa nas minhas lembranças.
Quando cheguei em São Paulo novamente, tudo nunca pareceu tão cinza, triste e sem sentido. Como minha mãe, uma profunda depressão se apossou de mim. Mal cheguei na cidade, e parti novamente pra minha antiga casa. Tinha algo a fazer.
Comprei uma corda, na cidadezinha e caminhei sem pressa pela estrada de terra. O sol estava se pondo quando cheguei. Escalei a árvore, com o rolo de corda grosso em volta do meu braço. Sentei no galho mais alto. Até na beira da morte, ela era forte como costumava ser. Olhei pra minha casa, pro canto em que meu pai costumava sentar e fumar seu cigarro de palha. Eu me senti com 7 anos de novo por um breve momento, e milhares de lembranças percorreram minha mente. Lembrei do sorriso que meu pai me deu quando sentei no galho mais alto pela primeira vez. Eu senti a presença deles, de alguma forma. Amarrei uma ponta da corda no galho grosso, e com a outra ponta fiz um aro, e vesti-o como um colar. Olhei o horizonte, o sol espiava com cuidado, seus últimos raios alaranjados de fim de tarde se despedindo de nós.
Fechei os olhos. Suspirei longamente. E relaxei o corpo. Senti um tranco, e ouvi alguns pássaros que estavam empoleirados na árvore voarem.
Tudo ficou muito calmo. Nunca me senti tão leve.
Vi meus pais abraçados, sorrindo pra mim. Eles diziam “Não tenha medo, venha!”. Eu sorria de volta do alto da árvore, e disse “Vocês me seguram?”. Eles confirmaram, e então eu pulei alegremente nos braços deles.
Tudo simplesmente sumiu.
No instante em que o sol desapareceu, morremos juntos.