Puro Carbono

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June 2013

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Costumava morar em uma casa no campo, no alto de uma montanha. Eram tempos fáceis, preocupações tolas e pessoas simples. Onde morava era pequeno, mas muito aconchegante. Vivia com meus pais. Gostava daquela época, daquela vida.
Não muito longe de casa, tinha uma árvore. Enorme, imponente, de galhos grossos e cheia das mais verdes folhas. O primeiro contato que tive com essa árvore foi único. Foi como reencontrar uma pessoa amada depois de anos. Meu pai me colocou sentado no galho mais baixo, não era muito grosso, mas sustentava facilmente o peso de uma criança de 7 anos. Eu me senti no topo do mundo, mesmo daquele galho. É incrível a perspectiva que temos do mundo quando somos crianças. Meu pai me disse “Vamo filho, sobe até o úrtimo galho! Mas toma cuidado, num precisa ter pressa”.
E então eu olhei pra cima. Foi uma visão esplêndida, vigorosa. O vento assoviava, e as folhas, grandes e verdes, farfalhavam em resposta. Fachos de luz preenchiam suavemente os poucos espaços vazios que existiam entre as folhas. Olhei pra baixo novamente e vi que meu pai foi se sentar no seu banquinho costumeiro.
Me apoiei no tronco e em outro galho, e devagar fiquei em pé. Olhava pra todos os lados, procurando a melhor rota pra escalar. Não senti medo, mas curiosidade. “Como será que é o mundo visto lá de cima?” eu pensava sem parar, criando imagens em minha cabeça. Em alguns minutos, estava um pouco acima da metade da árvore, pelo que parecia. Olhei pra baixo, e vi um ninho de pássaros, com alguns ovinhos. Fiquei realmente entusiasmado. Estava em um mar de folhas. No que pareceu um dia inteiro, quando dei por mim, estava no galho mais alto, contemplando as verdes montanhas além da minha humilde casa. O pôr-do-sol já se derramava sobre nós, alaranjando o horizonte suavemente. Olhei pro meu pai, tinha me esquecido dele. Ainda sentado no seu banquinho, sorria pra mim. Sorri de volta. O mundo pareceu diferente. Eu me senti diferente. Não queria sair dali.
“Filho, desce, tá anoitecendo, vamo jantá”.
Eu desci com uma incrível facilidade, como se já escalasse há anos. Antes de entrar em casa, apreciei novamente a imagem da enorme e majestosa árvore. E entrei pra jantar.
Desde então, passava a maior parte do dia escalando a árvore. Subia, descia, pulava, me equilibrava e pendurava. Ás vezes procurava novos ninhos de pássaros, ou insetos para brincar com gravetos.
Eu era educado em casa, pela minha mãe. Ela me ensinava muito bem, e quando ia estudar, levava o livro comigo para o galho mais grosso da árvore e o lia confortavelmente.
Com os anos, a árvore virou minha melhor amiga. Conversava com ela, chorava com ela, sentia com ela.
Nos dias chuvosos, eu ia fazer companhia pra árvore, e ela me acolhia.
Não haviam pessoas perto da onde eu morava. Sempre fora eu, meu pai e minha mãe. De vez em quando eu ia com meu pai até a cidade, mas não me interessava. Pra falar a verdade, eu ficava ansioso pra voltar pra minha amiga árvore.
Em uma manhã cinzenta e chuvosa, quando acordei, minha mãe estava ao meu lado, com os olhos cheios de lágrimas. Ela olhava pra mim com uma cara piedosa, melancólica, e enxugava o rosto de lágrimas.
Eu me assustei muito. Parecia que meu peito exodiria a qualquer segundo, nunca tinha visto minha mãe chorar. Quando perguntei o que tinha acontecido, ela me abraçou, soluçando. “Seu pai morreu. Vamo ter que ir pra cidade grande”.

Meu mundo acabou. Eu não queria ir pra cidade. Não queria abandonar minha árvore. Meu lugar era lá. Queria viver da agricultura, como meu pai. Respirar o ar que as árvores respiram. Beber da água que os animais bebem. Comer somente o que a terra pode fornecer, e não é pouco.

Minha mãe nunca me disse como meu pai morreu. Nunca quis tocar no assunto, e quando ela percebia que eu ia falar algo sobre, ela me silenciava. Fomos morar em São Paulo, com minha tia.
Pouco tempo depois, minha mãe também morreu. Simplesmente perdeu a vontade de viver, caiu em uma profunda depressão.
Nessa época eu já era homem, e trabalhava com minha tia na floricultura. Eu gostava do trabalho, me lembrava o campo. Nesse meio tempo, descobri uma nova paixão. Os livros. Minha tia lia muito, e frequentava a biblioteca todos os dias. E quando fui a primeira vez com ela, mudou minha vida. Foi como escalar pela primeira vez a minha querida árvore, que não via há muitos anos.
Comecei a ler excessivamente, sempre que podia. Um desejo de escrever começou a crescer dentro de mim, e ele era alimentado pelos livros que eu lia. Queria ser escritor. Essa foi minha decisão, minha meta de vida. Não queria levar uma vida em vão, sem propósito. Queria mesmo era criar histórias, personagens e mundos únicos. Escrever sobre o que achava das coisas, da vida e das pessoas.

Minha tia era viúva, e muito velha. Acabou morrendo de infarto. Herdei a casa, e uma pequena quantia que ela tinha designado a mim. Era uma boa mulher.

Comecei a enviar meus contos para vários jornais e revistas da cidade, e foram bem recebidos. Comecei a ganhar a vida com escritor, não era muito, mas pelo menos eu não passava fome.

Um certo dia decidi visitar minha antiga casa, e viajei de ônibus sozinho. Demoraram alguns dias, mas minhas lembranças daquele lugar me motivaram a seguir viagem.
Desci na cidadezinha, que era 1 hora de carroça longe da minha casa. Um bom senhor concordou em me levar até a solitária casa.
Da estrada de terra, consegui enxergar a silhueta de um casebre e uma enorme árvore do seu lado.
Quando caminhei, agora sozinho, até minha casa, me senti horrível. A terra estava muito seca, os pássaros não cantavam, e as outras montanhas no horizonte me encaravam tristemente.
A casa estava abandonada, caindo aos pedaços. As janelas quebradas e a porta arrombada. Quando entrei na casa, estava vazia, mofada, a madeira devorada por cupins, e havia grama saindo do chão em alguns lugares. Um desastre.
A pior parte veio depois, quando fui ver a árvore. Eu precisei ver a casa antes, afinal, meu pai construiu sozinho, com as próprias mãos, e foi onde eu nasci.
Quando cheguei perto da árvore, me senti como se tivesse acabado de tomar um soco no estômago. Caí de joelhos, e olhando a árvore, lágrimas escorreram pelo meu rosto, inesperadamente.
Estava grande como sempre foi, porém mais frágil do que nunca. Muitos dos galhos estavam quebrados, ou pendurados. O tronco descascado, seco, destruído. Pouquíssimas folhas, amareladas e secas, farfalhavam com o vento fraco. Podia jurar que a ouvi sussurrar “Onde você estava? Por que me deixou?”.
Enxugando as lágrimas, me levantei e caminhei vagarosamente pela estrada de terra. Olhava pra trás de vez em quando, e cada vez que olhava, me sentia pior. Não podia fazer nada, minha vida não era mais ali. Faziam 57 anos que eu tinha partido pra cidade, e desde então, só visitava minha antiga casa nas minhas lembranças.

Quando cheguei em São Paulo novamente, tudo nunca pareceu tão cinza, triste e sem sentido. Como minha mãe, uma profunda depressão se apossou de mim. Mal cheguei na cidade, e parti novamente pra minha antiga casa. Tinha algo a fazer.
Comprei uma corda, na cidadezinha e caminhei sem pressa pela estrada de terra. O sol estava se pondo quando cheguei. Escalei a árvore, com o rolo de corda grosso em volta do meu braço. Sentei no galho mais alto. Até na beira da morte, ela era forte como costumava ser. Olhei pra minha casa, pro canto em que meu pai costumava sentar e fumar seu cigarro de palha. Eu me senti com 7 anos de novo por um breve momento, e milhares de lembranças percorreram minha mente. Lembrei do sorriso que meu pai me deu quando sentei no galho mais alto pela primeira vez. Eu senti a presença deles, de alguma forma. Amarrei uma ponta da corda no galho grosso, e com a outra ponta fiz um aro, e vesti-o como um colar. Olhei o horizonte, o sol espiava com cuidado, seus últimos raios alaranjados de fim de tarde se despedindo de nós.
Fechei os olhos. Suspirei longamente. E relaxei o corpo. Senti um tranco, e ouvi alguns pássaros que estavam empoleirados na árvore voarem.
Tudo ficou muito calmo. Nunca me senti tão leve.
Vi meus pais abraçados, sorrindo pra mim. Eles diziam “Não tenha medo, venha!”. Eu sorria de volta do alto da árvore, e disse “Vocês me seguram?”. Eles confirmaram, e então eu pulei alegremente nos braços deles.
Tudo simplesmente sumiu.
No instante em que o sol desapareceu, morremos juntos.

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May 2013

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Sangue Frio, Noite Escura (Prólogo)

O som das sirenes já ecoava pela cidade, me desesperando. O beco estava escuro, recolhi o bastão com pregos do chão, senti-o melar minhas mãos com sangue, não me importei, precisava sair logo dali, ou seria preso. Comecei a correr, desorientado, pro fim do beco. Olhei rapidamente para trás, vi reflexos de luzes azuis e vermelhas. Fumaça saía da minha boca, fazia muito frio, mas não sentia. Me deparei com um muro, parecia ter uns 3 metros. Subi em uma lata de lixo que estava no canto, joguei o bastão por cima e logo depois escalei. Caí com o braço esquerdo em cima dos pregos no bastão, não podia estar mais desesperado. Sentia uma vontade enorme de chorar, senti o pânico tomar conta de mim. A iluminação desse lado da rua era melhor, porém ainda fraca. Arranquei o bastão do meu braço com força, uns 3 pregos tinham fincado profundamente, e mais alguns arranhões foram causados por outros. Nessa hora meu braço já estava inteiro vermelho, as sirenes ficaram mais altas repentinamente, olhei por cima do muro e vi as luzes, reluziam fortes no beco escuro, as viaturas já estavam lá. Levantei lentamente, não conseguia mexer o braço esquerdo, peguei o bastão e comecei a caminhar devagar, totalmente sem esperanças. Vi reflexos de sirenes dos dois lados da rua, não havia mais saída. Era mera questão de tempo até me pegarem. Caí de joelhos, lágrimas vieram inesperadamente, embaçando minha visão, soluços mudos me invadiram, senti que meu coração ia explodir. Perdi todas minhas forças, tudo começou a ficar escuro, o som das sirenes pareciam se distanciar cada vez mais, parecia que eu estava caindo, o silêncio foi crescendo, e fui invadido pela inconsciência.

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April 2013

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Déjà Vu

Já estava escuro quando acordei com a cara no chão gelado da cozinha. Minha cabeça doía, e eu me sentia muito pesado. Minhas roupas estavam úmidas e grudentas, me senti nojento. Levantei devagar me apoiando no balcão. Dei uma longa suspirada, ainda estava tonto, e acendi a luz. Fiquei parado por alguns longos segundos, e algumas breves imagens me vieram à cabeça: Eu virando o último gole de Jack, depois quebrando a garrafa na parede, e indo aos tropeços pegar uma cerveja na geladeira, que foi quando escorreguei na porra da poça de água que o vazamento da pia tinha causado e bati a cabeça. Olhando o chão agora, estava menos molhado, claro, minha roupa absorveu, e havia uma pequena mancha de sangue seco no chão. Apalpei minha cabeça raspada, procurando o ferimento e na mesma hora senti uma dor aguda. Olhei meu relógio, eram 2:13 da manhã. Fui dar uma mijada e ver se o corte não precisava de cuidados. Tinha mais ou menos 1 centímetro, e a área estava pouco inchada, não parecia tão grave. Peguei a garrafa de vodka que estava na banheira e derrubei um pouco sobre o corte. Doeu pra caralho.
Nem mesmo eu diria que afundaria tanto em uma noite só por ter perdido o emprego. Trabalhei naquela empresa por quase 8 anos, e agora preciso procurar outro trabalho se não quiser morar na rua.
Ainda estava bêbado quando alguém bateu em minha porta. Tomei um susto, olhei o relógio novamente e fui atender.
- Sr. Jonah?
- Quem quer saber?
- Eu.
O homem vestia uma capa de chuva, a noite estava fria e chuvosa.
- Posso entrar?
- Se me disser quem é você, poderia considerar.
- Trabalho para a Happy Death. Precisamos conversar.
- Happy D…
O homem tirou a capa de chuva e entrou, me ignorando.
Ele vestia um terno preto impecável, usava um óculos com um par de lentes bem grandes, mas que caía bem no rosto de traços firme do jovem.
- Sr. Jonah. Soube que perdeu seu emprego.
Nessa hora eu fiquei sem graça e curioso, pois faziam apenas algumas horas que eu tinha sido demitido. Ele devia trabalhar na empresa, mas com quem? Nunca o vi em 8 anos lá dentro.
- Bem… na verdade, eu pedi demissão.
- Não foi o que eu ouvi.
O homem ajeitava os cabelos molhados enquanto falava, com um tom divertido.
- Serei sincero e muito breve Sr. Jonah. Eu sou a morte. E era pra você estar morto há mais ou menos 30 minutos atrás.
Claro que depois de o homem falar isso, eu deixei escapar algumas risadas. Mas também me preocupou. Que tipo de homem adulto bateria na minha porta às 2:20 da manhã, numa noite chuvosa, e tentaria me convencer de que era a morte em pessoa?
- Entendo Sr. Morte. Posso te chamar assim?
- Eu tenho muitos nomes, mas chame-me como preferir. Nunca, em uma eternidade sugando almas, me aconteceu isso.
- Isso?
- A falha. O que o senhor é?
- Como assim “o que eu sou”? Sou um homem que acabou de perder o emprego, não tem família, amigos, mora sozinho e bebe toda noite. Não passo disso.
- Gostaria que viesse comigo.
- Pra onde?
- Para o submundo. Preciso investigar se o ocorrido foi culpa sua ou minha.
Comecei a perder a paciência, estava cansado, com muita dor de cabeça e machucado.
- Hoje não, Morte. Quem sabe outro dia.
Abri a porta e convidei-o a se retirar. Ele levantou, me deu um sorriso e olhou profundamente em meus olhos.
- Sim Sr. Jonah. Quem sabe outro dia.
E saiu caminhando na chuva, calmamente pelo meio da rua. Achei tudo aquilo muito estranho e não sei que tipo de merda eu tinha na cabeça pra deixar um estranho entrar de madrugada na minha casa. Talvez tivesse sido o álcool. Fui até a cozinha beber um copo de água, estava com muita sede.
Bebi um copo. Dois copos. No terceiro, deixei metade no copo. Comecei a me sentir pesado, as paredes, a mobília, tudo começou a se desfazer em cinzas, e perdi o chão sob meus pés. Me senti flutuando no meio do nada, e um pesado sono me acolheu. Assim passei por alguns dias. Naquele mesmo chão. Quando me levantei, vagarosamente, me sentia diferente, tinha algo de sobrenatural em minhas veias. Não me sentia cansado, não tinha fome, sede ou qualquer outra necessidade. Me sentia leve. A manhã estava cinzenta, e o sol fraco e melancólico invadiu minhas janelas, iluminando minha sala suavemente.
Me sentei no sofá, e senti algo gelado debaixo de mim. Me inclinei e tirei. Era uma capa de chuva, amarela e ensopada. Eu não tinha nenhuma capa de chuva. Não tinha amigos, família e não recebia ninguém em minha casa. Não sabia de onde era aquilo, mas joguei em um canto e assim deixei por alguns dias.
Estava dormindo profundamente quando ouvi alguém batendo na minha porta. Acendi o abajur, e olhei o relógio. Eram 2:20.
Levantei e fui atender. Era um homem com uma capa de chuva, chovia muito. Ele olhou profundamente nos meus olhos.
- Sr. Jonah?
Por algum motivo não consegui falar nada. Nunca tinha visto aquele homem na minha vida, mas parecia que eu o conhecia. O que ele queria?
Por algum impulso, olhei para o canto da sala onde tinha deixado minha capa de chuva, que era muito parecida com a do homem. Não estava lá. Mas tudo bem, depois eu procuraria e acharia. Não enxerguei ameaça nele e o convidei para entrar.
- Entre senhor. Está uma fria e chuvosa noite. Quer tomar algo?
O homem tirou a capa de chuva molhada e jogou no mesmo canto em que a minha estava antes, e se sentou. Vestia um elegante terno preto.
- Um copo de água, por favor.

Apr 09, 20130 notes
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